Tem algo sobre acordar cedo no sábado de manhã que me lembra a sensação de conseguir correr um quilômetro a mais na esteira mesmo sem ninguém te olhando ou comer uma sopa no jantar quando o que você realmente queria eram 7 pedaços de pizza. É algo tão grandioso que (quase) supera a raiva de você mesma por não ter dormido direito depois de se sentir cansada a semana inteira, mesmo você tendo prometido que tentaria dormir 8 horas por dia. Ai vem: o silêncio, a calma, a luz branca de uma manhã fria pela janela e um café quente na mão. E então, tudo valeu a pena.
Esses dias a cidade tem estado bem fria, algumas vezes com neve e chuva. Os dias de sol dão vontade de passear mas na verdade são os mais frios, e os dias de neve dão preguiça de sair mas na verdade são os mais quentes. E eu gosto deles porque me deram a desculpa perfeita pra comprar uma nova bota de plataforma que foi absolutamente necessária pra criar a minha nova personalidade descolada e desprendida de garota da cidade que nasceu em Nova York e tem pavor de uma vida nos subúrbios.
Essa dicotomia entre os dias coloca minhas duas maiores personalidades em conflito: a que se sente muito jovem e quer sair pra explorar a cidade e viver o presente fora da própria cabeça versus a que se sente uma senhora de 70 anos que quer ficar no conforto da própria casa assistindo um documentário sobre a realidade cruel das pescas ilegais na Coréia do Norte (sério, é assustador). Colocando na balança duas da minhas (talvez) sete personalidades, acabo saindo dia-sim-dia-não, equilibrando sextas-feiras animadas com domingos de moletom e potes de sorvete com eventuais sábados de manhã silenciosos.
Chegando “perto” dos 30 (quem colocou isso na minha cabeça?), o que deveria ser uma era de ouro e não uma pressão para viver a minha melhor vida enquanto ainda não tenho resposta nenhuma, é inevitável me sentir culpada por ter pessoas brigando dentro de mim por quererem coisas absolutamente diferentes (escritora desapegada, executiva poderosa com roupas chiques, cozinheira de programa de tv, participante de reality show, herdeira gostosa com tempo de sobra para malhar ou um ícone fashion do Instagram descoberto depois dos 27 anos).
Também me faz pensar se é possível imprimir todas as nossas vontades dentro dessa tela branca que chamamos de vida (como se fôssemos ter várias oportunidades de refazer nossas escolhas no futuro) ou se em cada momento precisamos tomar decisões que inevitavelmente levam todo o rumo da nossa vida em uma única direção possível. Como se cada trabalho-que-deixei-de-aceitar-por-ser-um-ambiente-tóxico-e-machista fosse tirando minhas chances de encontrar uma carreira que de fato faça sentido pra mim, ou se cada fim de semana que eu escolho ficar em casa em vez de sair pra beber criasse rugas na minha testa me aproximando silenciosamente da versão idosa que venho cultivando, tal qual um caminho sem volta.
Colocando na balança todas essas personalidades (e já pedindo desculpas para aquelas que esqueci), resta me perguntar como fazer para não anular uma em detrimento da outra- ou, ao menos, conseguir escolher a versão de mim que me convêm a depender do dia e das tarefas que preciso realizar (e da quantidade de carisma necessário). É possível ter preguiça de realizar qualquer mínima tarefa e ao mesmo tempo querer ser uma executiva de sucesso? É possível sonhar em ser uma escritora descolada e ao mesmo tempo ter pavor de um carreira sem regras claras delimitadas? E, finalmente, é possível se descobrir herdeira depois dos 27 anos(???) Me conte se descobrir.
Só sei que, enquanto tento construir a versão de mim que (1.) junte cada parte estranha, sincera e realista de cada um desses sonhos, (2.) me faça sentir bem comigo mesma e (3.) não abra mão de nenhuma vontade própria em detrimento da aprovação alheia, continuo sendo uma pessoa diferente a cada dia, na torcida para que ninguém me flagre e descubra que sou uma grande impostora inconsistente.
De qualquer forma, a única escolha que não me parece possível é deixar de ser qualquer uma das coisas que eu quero ser por medo dessa versão não caber em algum lugar. Tenho a sensação de que precisamos ter pessoas, ambientes e atividades na nossa vida que nos permitam ser quem quisermos ser, sem nos culpar ou desqualificar pelas mudanças de vontade, humor, sonhos e fascínios. Afinal, somos tantas coisas dentro de um corpo só, e temos tantas vontades que ainda nem sabemos. Por fim, espero que a gente tenha a coragem para descobrir e, mais importante, construir a versão da gente que a gente mais goste. Sempre.
Com amor,
Nina