Eu sempre tive essa ideia pré-concebida que só podiam se intitular criativas as pessoas que tinham nascido com dons extraordinários para as artes, o cinema, a literatura ou o teatro. Pessoas diferenciadas e inalcançáveis com habilidades tão obviamente geniais que nunca nem mesmo se perguntaram se poderiam ou não chamar a si mesmas de criativas. E é engraçado porque apesar de ser nascida numa família de advogados eu sempre tive uma mente altamente distraída gritando 24h por dias sobre coisas aleatórias, portanto nunca fui capaz de escrever uma petição inteira sem ao mesmo tempo escrever na minha mente um monólogo sobre como as calcinhas largas são subestimadas (e como as roupas femininas são desenhadas por cérebros masculinos, o que me irrita profundamente de uma forma que eu não sei explicar). Por essas e outras, eu sempre precisei encontrar escapes pra depositar a minha – (ai meu deus) – criatividade.
Quando começamos, como seres humanos, a definir quem somos? Nos definimos a partir das nossas concepções pessoais ou as das outras pessoas? Um menino de 8 anos é capaz de olhar pra si mesmo no espelho e pensar: “poxa, que bacana, acho que sou um menino criativo!” e compartilhar tranquilamente essa autodescoberta com os seus amigos? Ou se a sua tia de segundo grau olhar pra ele e disser que ele não nasceu pra ser artista e deveria focar em estudar outras coisas porque o mundo lá fora é muito incerto ele vai naturalmente absorver essa certeza inquestionável pelos 20 anos seguintes e “decidir” trabalhar com contabilidade?
Acho que o que eu quero dizer é que me parece muito corajoso – ousado até – acreditar na própria criatividade. Como se a criatividade fosse uma grande competição que só deveria ser disputada, pra início de conversa, por ícones do mundo da moda ou escritores renomados que nunca tiveram um livro rejeitado. Como se a criatividade fosse um bem intangível e subjetivo que precisasse ser oferecido a você como um presente dos deuses, e não criado, ou sonhado, ou planejado. Como se a arte, a expressão ou qualquer tipo de criação não fosse, antes de tudo, uma vontade – que precisa sim ser planejada, estudada, criada e concebida com cautela e tempo.
Não sei vocês, mas eu achei por muito tempo que os gênios das artes acordavam inspirados e saíam pintando quadros e escrevendo livros, até que um dia eu li de um dos meus autores preferidos que “se ele fosse esperar pra musa dele aparecer todos os dias pra ele poder trabalhar, ele estaria ferrado”e isso me soou tão incrível que foi quase como uma permissão pra escrever mesmo nos dias em que eu estava me sentindo um lixo (assim como precisaria fazer com qualquer outro trabalho). E também me fez pensar: por que damos o benefício da inspiração para os artistas e não fazemos o mesmo pro pessoal da contabilidade? Você já pensou na arte que é trabalhar com uma planilha de excel o dia inteiro sem perder a paciência? Enfim.
Hoje mesmo seria um dia em que eu não teria escrito nada se eu tivesse me atido somente ao pensamento de que não tem nenhuma ideia boa o suficiente na minha cabeça que mereça ser lida por outra pessoa. Mas bom, voi là, cá estou eu, escrevendo um monte de besteira mesmo assim. Porque, no fim do dia, eu acho que a criatividade precisa ser construída e treinada como qualquer outra atividade: aprendendo, errando, treinando, observando, assistindo filmes, lendo livros e coletando informações de todas as fontes que possam te ensinar alguma coisa. A questão é que não conseguimos dar o grande salto quântico entre a teoria e a prática, e parece que pra criarmos qualquer coisa que tenha algum valor precisaríamos ser muito melhores do que realmente somos.
Por fim, arrisco dizer que a criatividade é muito mais sobre o que fazemos com o que achamos que sabemos, do que realmente sobre o que achamos que sabemos. Assim como eu passei anos lendo todos os livros que encontrava pela minha frente e não fui capaz de mostrar uma palavra do que eu escrevia, acredito que tem mais pessoas por aí silenciosamente guardando suas lindas criações pra si mesmas porque sentem que não são boas o suficiente – sob o risco de ficarem cada vez mais críticas com o que criam e menos dispostas a se expor pro mundo e, deus me livre, falhar.
Porque criar é também, de certa forma, falhar. Assim como eu posso achar meio legais (mas de um jeito bem inseguro) as coisas que eu escrevo, o resto do mundo pode achar uma merda – e isso quer dizer que todos somos capazes de errar em paz simplesmente porque gostamos de fazer o que fazemos. Então, sim, parte do trabalho é ignorar o que as outras pessoas acham. Geralmente, quanto mais pessoais e estranhas as suas criações se parecerem, maiores as chances delas realmente terem sido ideia sua (o quão legal é essa ideia? li num livro outro dia).
Bom, escrevi tudo isso pra dizer que eu acho sim que todo mundo é criativo. Afinal, todo mundo vive, observa, sente e se expressa de formas completamente diferentes. Mas eu acho que nem todo mundo está disposto a treinar a criatividade e levar ela a sério, porque achamos que temos coisas mais importantes pra fazer (como trabalhar pra pagar o aluguel que infelizmente custa quase todo o nosso salário), o que na verdade é uma autossabotagem porque no fundo não achamos que temos o dom divino que é preciso pra criar. Mas eu realmente acredito que, se a gente der uma chance pra que as nossas ideias possam fluir e encontrar um espaço pra existir no mundo aqui fora, coisas lindas podem acontecer.
Com amor,
Nina
