Essa conclusão óbvia, porém bastante autocrítica, partiu de uma reflexão mais comum do que eu gostaria de admitir enquanto me olhava no espelho. Mal acordei e já pensei “meu deus, que coisa horrível”. Minha pele completamente ressecada, meu cabelo desgrenhado, minhas olheiras delatando meu cansaço maior que o habitual, minhas sobrancelhas gritando para serem feitas. Seria isso culpa das mulheres perfeitas que habitam a tela do meu celular sem a minha permissão? Então, depois de criar uma série de ideias destruidoras com vida própria, finalmente respirei e pensei: calma, acho que está tudo bem.
Tudo começa quando você está no útero. Você já é sonhada como a garota perfeita desde a imaginação da sua mãe, que visualizou você como uma linda menina inteligente, sorridente e delicada. Você nasce, passa a sua infância e adolescência sendo exposta a todos os níveis de competição toxicamente impregnados no universo feminino — desde quem se veste melhor (como a sua amiga de sete anos usa um look combinando diferente todos os dias? E, sim, isso inclui uma boina rosa) até quem é a mais inteligente e tira as melhores notas. Elena Ferrante já nos ensinou que somos melhores do que isso.
A mulher cresce aprendendo a antecipar e aprimorar todas as suas necessidades, como descobrir sozinha que precisa depilar as pernas antes que a sua melhor amiga comece a rir delas na sétima série enquanto imita um macaco (e depois chorar escondida no banheiro). É de imaginar que, por volta dos vinte e dois anos, já esperam que ela esteja sempre bonita, cheirosa, com o trabalho em dia, exercícios físicos diários (e também um pouco de ioga para mostrar que não é surtada), as finanças organizadas, a louça lavada e a casa arrumada (sua casa própria, claro) — e o pior de tudo: bem-humorada. Carismática até.
O nível de estresse emocional que se deposita na esperada perfeição feminina acaba transformando a nossa vida, se não estivermos atentas, em um grande palco competitivo em relação a todas as coisas possíveis. Não se engane: muitas vezes, a competição é com nós mesmas (vou trabalhar mais do que trabalhei ontem, vou escrever mais do que na semana passada, vou me alimentar melhor esta semana, vou escutar mais podcast, vou ficar menos tempo no celular, vou ser mais autêntica) e — ufa! — fico cansada só de ler. Mas, em resumo, não paramos de nos cobrar. O que é completamente compreensível, uma vez que foi isso que aprendemos a fazer.
Então lá pelos vinte e cinco anos, começamos a ter crises de burnout — estamos exaustas, choramos escondidas no banheiro, trabalhamos com coisas de que não gostamos, suportamos homens que gritam “foguete não tem ré” no nosso trabalho e não temos tempo nem para lavar o cabelo. O que aconteceu aqui? Compramos a mentira de que precisamos estar constantemente competindo com nós mesmas e que precisamos ao menos tentar ser as melhores em tudo o que fazemos (e nem precisamos gostar do que fazemos). E isso é exaustivo. Como podemos nos sentir bem conosco quando tudo que aprendemos foi a nos sentir mal — a não ser que fôssemos perfeitas?
Então fazemos terapia para desconstruir todas essas ideias, e é libertador entender que não precisamos ser as melhores em tudo, como também podemos nem querer isso. Podemos apenas querer um trabalho bacana que não acabe lentamente com a nossa alma e nos permita ir para casa cedo descansar e pedir comida japonesa à noite enquanto assistimos a Netflix. Podemos realizar nossos projetos em silêncio, sem implorar por atenção, aprovação, aceitação ou prêmios Forbes antes dos trinta por qualquer coisa que vamos fazer. Podemos, inclusive, ter projetos menos importantes que resolver a desigualdade social ou a fome mundial. É pedir demais?
Enfim, podemos só existir sem lutar pela perfeição o tempo todo. Podemos só ser quem somos, sem toda a maquiagem, o vocabulário inteligente, a conversa agradável ou o tom de voz delicado. Sem precisarmos ser muito boas em tudo o que nos arriscamos a fazer. Podemos inclusive ser ruins nas coisas que fazemos, só porque gostamos delas (!!!). E quem sabe assim a nossa saúde mental ganha um respiro — e os nossos projetos (aqueles de que realmente gostamos) ganham espaço para existir no mundo lá fora — sem tanta cobrança, insegurança e autocrítica.
Quando entendemos que a perfeição feminina é uma ideia criada propositalmente por uma sociedade patriarcal para nos limitar, começamos a criar coragem para arriscar ser quem sempre quisemos ser. Finalmente, uma existência sincera, imperfeita e sem constantes cobranças começa a parecer algo realmente importante (e possível), e começamos a visualizar aquela mulher que queríamos ser antes de ela parecer apenas um sonho distante demais.
Por fim, me parece que não ser a melhor em tudo é a melhor coisa que pode acontecer a uma mulher que precisa recuperar o fôlego. Descobrimos que podemos só existir sem tentar nos superar o tempo todo, e essa ideia completamente inovadora toma conta da nossa vida como uma avalanche. É então que nos damos uma chance e descobrimos que podemos ser qualquer coisa que quisermos.
Com amor,
Nina