Você tem medo do quê?

Eu sempre achei que coragem era pular de paraquedas. Achei que as pessoas corajosas eram aquelas que se jogavam de montanhas, se perdiam no deserto, navegavam o alto mar ou voavam de asa delta. Acontece que eu já tentei voar de asa delta e foi a pior experiência da minha vida e eu achei que ia morrer e comecei a chorar quando encostei no chão. E então, eu não sou uma pessoa corajosa? O que é coragem?

Eu costumava falar que eu era uma pessoa medrosa. Porque, no fundo, eu tenho medo de tantas coisas. Tenho medo do escuro, tenho medo de altura, tenho medo de quando o avião entra no meio da turbulência e eu tenho certeza que eu vou morrer. Tenho medo do mar, tenho medo dos bichos escondidos no mar (ninguém fala sobre isso), tenho medo de ficar presa em elevador ou qualquer outra coisa que me prenda. Ufa!

Mas, se parar pra pensar, esses medos não me importam. Quer dizer, se um dia eu ficar presa num elevador (espero que não), eu vou dar um jeito de sair de lá. Mas será que essas coisas realmente vão acontecer? E talvez uma pergunta mais importante: e se acontecerem? Esses medos vão me paralisar? Não, porque eles não impedem que eu viva a minha vida, não estão presentes no meu dia, não me fazem viver com medo. Essa é a diferença. 

Eu acho que a gente não pode viver com medo. Isso é muito pior. Quando a gente vive com medo, as coisas da nossa vida nos assustam, sabe? Arriscar nos assusta, tentar algo diferente nos assusta, nos expor nos assusta, perseguir uma carreira que a gente realmente quer nos assusta. E então, o que é mais grave? Pra mim, sem dúvidas, é essa última opção. Eu prefiro mil vezes passar a minha vida sem pular de paraquedas do que passar a minha vida sem arriscar perseguir os meus sonhos. 

A gente precisa escolher com quais medos a gente aceita conviver. E cada um de nós tem medos completamente diferentes, claro – a vida não é uma competição de quem é mais corajoso. Mas a gente precisa decidir o que importa pra gente. A gente precisa entender, o mais cedo possível, o que nos faz dormir em paz. Se pra você é ter pulado de paraquedas, ótimo. Pra mim, é ter a certeza de que eu fiz a minha parte. De que eu tentei, arrisquei, fui atrás do que queria pra mim. E isso já é grande demais.

Eu parei de me chamar de medrosa. Sinceramente, eu tenho uma coragem imensa. Eu mudei de carreira depois de perceber que não me via praticando o direito. Eu me mudei de país pra tentar ir atrás dos meus sonhos. Eu comecei a expor os meus textos para o mundo. E eu sigo tentando entender o que eu quero pra mim. Eu me permito mudar, sempre que preciso. Eu me permito recomeçar, errar, pausar. Isso é corajoso demais. 

A gente precisa reconhecer a nossa coragem. Ela nos movimenta, nos dá força e constrói a nossa autoestima. Só a gente sabe o que realmente nos exigiu coragem. Só a gente sabe quão difícil foi sair de um relacionamento que não dava mais certo. Sair de um curso que não despertava nossa paixão. Sair de um trabalho que não era o nosso lugar. Eu acho que ouvir o nosso coração é um dos atos que mais exigem coragem. Porque, geralmente, ele desafia a lógica. Desafia o senso comum. E, muitas vezes, desafia as nossas próprias convicções. 

Então, afinal, o que eu acho que é coragem? Pra mim, coragem é dar espaço para os nossos desejos se manifestarem. É ouvir essa voz baixinha dentro da gente, que precisa de atenção pra ser ouvida. É expor o nosso trabalho, mesmo quando isso parece a coisa mais difícil do mundo. É aguentar as críticas. É se dedicar aos nossos sonhos, nem que seja só um tempinho à noite, depois do trabalho. É acreditar que a gente é capaz de tudo que a gente quiser. 

E, no fundo, só a gente sabe o que a gente realmente quer. O que a gente precisa. O que nos move. O que nos faz vibrar. O que nos dá orgulho. Só a gente sabe o que está escondido dentro da gente. Coragem é ouvir esse chamado. Coragem é ter medo, e fazer mesmo assim. 

Com amor,

Nina 

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